Madeira Rameal Fragmentada & Adubos Verdes mais Duráveis

Eixos de ação da ART

  • regeneração de solos tropicais e da capacidade de reter/fornecer água
  • regeneração da paisagem, biodiversidade produtiva e da capacidade fotossintética
  • quebra-ventos aumentam o conforto fisiológico/a fito-sanidade da cultura
  • produção de produtos alimentícios/aromáticos/medicinais mais vitalizados

1 – Adubação regenerativa: união inovadora da MRF & AV+d

MRF = madeira rameal fragmentada.
AV+d = adubos verdes mais duráveis.

2 – Origem e autoria dos métodos

MRF: surge de dois autores, ambos nas décadas 70/80, em locais distantes:

  • Ernst Goetsch, agroflorestas, Costa Rica, Amazônia, Bahia – BR;
  • Gilles Lemieux, Universidade de Laval, Quebec, CA, define: MRF=madeira rameal fragmentada.

AV (adubos verdes): inúmeros autores de diversas instituições

  • IAC, desde 1940, iniciou a pesquisa com adubos verdes em cafezais;
  • IAPAR, EPAGRI, EMBRAPA, EPAMIG, sistema EMBRATER e tantas outras.

AV+d: diversos autores / espécies não-tradicionais

  • Antonio Luis Fancelli, ESALQ, Eduardo Bulizani, IAC, 1984 e José Donizetti, Pirai Sementes, buscando viabilizar o plantio direto no trópico;
  • Inúmeros outros autores, pesquisando adubos verdes, alternativas às tradicionais leguminosas, testando espécies como milheto, sorgo, milho-verde, girassol, centeio e outras;
  • Ernst Goetsch, utilizando-se de bananeiras para adubação verde em SAF;
  • Manfred v. Osterroht, utilizando-se de bananeiras na adubação de tomate orgânico/regenerativo, cultivado em estufas com solo salinizado;
  • Guilherme Korte e Richard Charity testando diversas espécies de bambu como fornecedores de biomassa adubadora para agricultura regenerativa.

A inovação da ART consiste na combinação de MRF & AV+d, dupla camada de proteção e regeneração do solo, copiando a eficiência de uma floresta:

  • MRF: cobertura morta como camada durável colada ao solo.
  • AV+d: cobertura verde fechando sobre o solo durante o ciclo de adubação.

3 – Contextualização dos métodos de adubação para o trópico

3.1 Sobre a MRF

Toda paisagem pode fornecer a matéria prima para um adubo muito valioso, a MRF. Basta implantar as árvores fornecedoras de madeira rameal, exóticas, produtivas e bem-adaptadas. Não existe contra-indicação para adubação com MRF. A fertilidade gerada é plena e sustentável. Um adubo capaz de resistir às intempéries do trópico (calor, chuvas torrenciais e luz) e apto a gerar fertilidade plena (biológica, física e química). A compostagem laminar do horizonte A de solos tropicais aumenta a capacidade de retenção de água.

3.2 Por quê o adubo verde não basta, para quê os “mais duráveis” (AV+d)?

Porque no trópico (e no sub-trópico também, devido ao aquecimento global) a biomassa das leguminosas desaparece rápido demais, deixando de cumprir a importante função de cobertura e adubo durável e eficiente. Trata-se de uma cobertura apropriada aos meses mais chuvosos, cuja adubação tem ação de médio prazo.

4 – Desenho do sistema

O sistema consiste no revezamento de faixas florestais (estreitas) com faixas de cultivo (largas), em espaçamentos que podem ser ajustados para cada situação. Para região do CO paulista, consórcio de hortaliças com frutíferas, temos:

  • Faixas estreitas (fileira dupla árvores fornecedoras de MRF): 4m de largura;
  • Faixas largas (recebedoras de MRF, para cultivos anuais): 12m largura;
  • Espaçamento total do módulo básico: faixa adubadora + faixa cultivo: 16 m;
  • Dentro faixa florestal, frutíferas perenes: citrus, goiaba, mirtáceas;
  • Faixas de cultivo, com hortaliças/frutíferas de ciclo curto: melancia, mamão.

O ganho de eficiência pelo plantio em faixas, ao invés de blocos, é triplo:

  • luz lateral para as faixas florestais, aumento de fotossíntese em até 200%;
  • não precisa adubar nem irrigar faixas florestais, que se nutrem das cultivadas;
  • proteção contra o vento e maior conforto fisiológico para os cultivos anuais.

5 – Potencial regenerativo da Lignina: observações iniciais

5.1 – Lignina no contexto vegetal

Lignina é o “tijolinho” que compõem a madeira. Não fosse a lignina, não haveria madeira para sustentar o porte e a arquitetura das árvores. Madeira surge do xilema, pela lignificação (preenchimento com lignina) das células vegetais que são formadas de celulose. Veja-se as diferenças destas moléculas:

Observe-se a presença dos muitos anéis fenólicos na lignina, difíceis de serem rompidos no processo de decomposição biológica, o que explica o longo tempo de decomposição da madeira, quando comparada a outras substâncias orgânicas.

5.2 – Madeira rameal = madeira “verde” = Lignina jovem

Na madeira dos ramos, ainda flexíveis, a decomposição é facilitada pois possui:

  • porção menor de lignina e menor adensamento;
  • porções maiores de açúcares, aminoácidos, minerais e enzimas.

Decorrente destes componentes, os nutrientes minerais e orgânicos estão assim distribuídos (percentuais médios):

  • 70% dos nutrientes estão nos ramos jovens;
  • 30% se distribuem nas folhas, no tronco e nas raízes.

Obs: madeira de tronco, mesmo se for fragmenta, não serve como adubo!

É por isso tudo que a madeira rameal, ainda mais se for fragmentada, é a melhor precursora de húmus em solos tropicais. Ocorre uma verdadeira micro-compostagem de cada fragmento pelas atividades biológicas do solo, deixando ‘in loco’ todos benefícios e todos subprodutos do processos de decomposição cadenciada, disponibilizados constantemente para as plantas que sobre ele crescem.

5.3 – A micro-compostagem (dilatada) de lignina no solo tropical

Diferente do que ocorre com folhas e raízes de plantas herbáceas, a compostagem de fragmentos de lignina jovem (ramos picados) passa por um processo de compostagem lenta e gradual, muito mais durável e eficiente em clima tropical.

Isto faz surgir uma dinâmica de real acúmulo de húmus no solo, fazendo seu teor saltar em até 100% sobre a média regional e seguramente 60% sobre a média de solos sob manejo orgânico. Considerando 3 a 6 anos de aplicações recorrentes.

5.4 – Alternância no modo de aplicação

Recomenda-se uma alternância nos modos de aplicação:

  • como cobertura morta, aumenta efeito protetor e diminui o efeito adubo;
  • misturado ao solo, é o inverso: aumenta efeito adubo e diminui a proteção.

5.5 – Fertilidade plena e duradoura

A fertilidade gerada é prioritariamente biológica, pela intensidade dos processos de vida ativados, levando a reboque as fertilidades física e química:

  • A ativação dos processos biológicos, em proporção muito acima da média;
  • Ativa processos de estruturação do solo, tornando-o mais arejado;
  • Ativa também os processos químicos: fixação livre de nitrogênio, disponibilização de P pela ciclagem orgânica, retenção de sódio e potássio, mobilização adequada de micronutrientes e nutrientes úteis (Si, Se, Na etc).

5.6 – “Salto quântico” na fertilidade física: CRA

Além dos índices tradicionais de fertilidade, pH, V% e o teor de nutrientes, a fertilidade de solos adubados com MRF se destaca pelo aumento expressivo da capacidade de infiltração e retenção de água:

  • Aumenta portanto sua macro-porosidade, facilitando a infiltração chuvas;
  • Aumenta também sua micro-porosidade, elevando sua capacidade de retenção de agua, a CRA, em pelo menos 20%, podendo chegar a 50%;
  • Desta forma, o incremento da CRA equivale a 1/3 de uma boa irrigação.

 

6 – Sinergia da aplicação conjunta de MRF & AV+d

 

Cada de adubação, por si, já é capaz de sustentar uma fertilidade duradoura. Porém juntos, seus efeitos são sinérgicos, multiplicam fertilidade dimensão ainda maior:

  • As recorrentes aplicações de MRF criam uma camada ultra-fértil que tende a ser superficial, um verdadeiro PAN, como são chamadas as camadas de solo;
  • Adubos verdes podem aprofundar a fertilidade na verticalidade, pela prodigiosa atividade de suas raízes; sobretudo se forem consorciados!

Nesta combinação amplia-se o volume de solo fértil, estabilizando a produção!

 

7 – Links:

 

https://fr.wikipedia.org/wiki/Bois_raméal_fragmenté

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Ramial_chipped_wood

 

https://cepeas.org/wp-content/uploads/2018/05/1-Princ%C3%ADpios-de-Agricultura-Sintrópica.pdf

 

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